segunda-feira, dezembro 11, 2006

Há coisas fantásticas, não há?!?


Faz 3 anos que por volta das vinte e três horas do dia anterior comecei a sentir dores bem apertadas vindas nem sei bem de onde. Dores que me faziam pensar que estava quase e que só queria que tudo acontecesse depressa, porque as dores tornavam-se insuportáveis com o avançar das horas.
Tinha ido à maternidade nessa tarde e disseram-me que quando sentisse contracções de 10 em 10 minutos para voltar, mas o que estava a sentir naquele momento eram dores terríveis de 3 em 3 minutos, portanto só pensava que teria que ser outra coisa qualquer que antecipava ás ditas contracções. Entre a saída de casa dos meus pais, onde bebemos um chá quente, pois estávamos ambos engripados e a chegada a nossa casa, ainda tivemos direito a uma operação Stop e enquanto o B. convencia o polícia a não lhe passar a multa porque vinha sem cinto devido a um jeito que tinha dado num jogo de futebol imaginário, eu dentro do carro, com cinto a contorcer-me de dores. Já em casa, ele na cama e eu sentada, em pé, deitada no sofá com uma folha de papel, a caneta e o relógio a tomar nota das horas de cada vez que tinha uma dor.
Em menos de nada os minutos diminuíam entre as dores que já eram quase constantes, espaçadas no máximo por dois minutos.
Três da manhã, já estava naquilo há quatro horas, não tinha forma de estar, posição ou pensamento, só queria que passasse porque custava imenso. O B. dormia no quarto e eu continuava pela sala a tentar trepar paredes e móveis e a tentar a tal respiração que tinha aprendido nas aulas de preparação para o parto. Em vão! Fui ao quarto, acordei-o e pedi-lhe para irmos para a MAC. Tentou acalmar-me, sugeriu que me deitasse e tentasse dormir, porque se fossemos para lá mandar-me-iam para casa.
Deitei-me, mas com dores daquelas não conseguia estar deitada, muito menos dormir, mas também não conseguia estar em pé ou sentada, só me apetecia chorar e deixar de sentir.
Passaram mais três horas quando já não suportava mais nada e sem mesmo querer saber fui direita a ele e disse-lhe que queria ir para a maternidade, podia ser que lá me dessem alguma coisa que atenuasse as dores. Inocência!
Perante um pedido/ordem desesperada destas lá nos fomos vestindo e preparando para arrancar. Eu demoradamente, pois mal me conseguia mexer. Mesmo em cima da hora de saída sinto algo a escorrer violentamente e sem perceber o que seria fui mudar-me porque estava suja.
Descer aquele 4º andar sem elevador foi um suplício, entrar no carro idem, idem, aspas, aspas e a viagem, desta vez sem cinto de segurança, sem palavras.
Chegar, entrar a voar maternidade dentro, enquanto ele dizia ao balcão que eu tinha mesmo que entrar pois estava cheia de dores.
Tira roupa, faz toque, que desta vez nem me causou dores, tais eram as outras que tinha e ouvir um “as águas romperam e por isso fica já internada, senão voltaria para casa, pois não tem dilatação nenhuma. Vista a bata e meta todos os seus objectos pessoais no saco e vá entregá-los ao seu marido. Despeça-se!”.
Não sei ao que isto me soou. Lembro-me de ir ter com ele à sala e de lhe entregar as coisas e de lhe dizer que quando saísse dali já seria com a nossa filha, mas as dores eram tantas que eu não conseguia ficar quieta.
Regressada à zona interdita, passámos à parte degradante da raspagem e clisteres. Toca de deitar numa maca, ligar o CTG, pôr o soro e aguardar, porque “isto ainda está muito atrasado, só lá para o meio-dia”.
O meu pensamento foi aterrador! Eram seis e trinta da manhã, até ao meio-dia ainda tinha mais seis horas de dores pela frente.
Já na sala e devidamente equipada, as horas não passavam e eu só me contorcia, sem grande liberdade de movimentos e a ver a mulher que estava na outra maca, tranquilamente a olhar pela janela, sem respiração ofegante ou contorcida com dores. Se ela soubesse o que a invejava…
Sede, muita sede e sem poder beber água, vontade de ir à casa de banho. Chamar a enfermeira, falar-lhe do que sentia, lá se chama o médico, novo toque para ver se era mesmo vontade de ir à casa de banho ou se estava a chegar a hora, mas nada, “continua sem dilatação feita”. Na casa de banho a força não surtiu qualquer efeito, mas a torneira do lavatório chamou-me e não resisti a beber um pouco de água, apesar de ter sido avisada de que não o podia fazer.
Volto para o quarto, nova instalação de equipamento e mais sei lá quanto tempo de dores e de tentativas vãs para controlar a respiração!
Chamo a enfermeira, novamente, já não me sentia, o meu rosto latejava e constatam que tinha febre e que o CTG apresentava taquicardia no meu bebé.
Chama médica para novo toque, mas que ao ver o panorama diz “não há mais toques, já para o bloco operatório”. A alegria que me invadiu é indescritível. A enfermeira em tom penoso disse um “não sei se já percebeu o que vai acontecer, boa sorte”. Sabes lá mulher, é a melhor coisa que ouvi nas últimas horas, pensei eu!
Entre a sala do CTG e o bloco operatório ainda tive tempo de ficar presa no elevador com o maqueiro e uma médica. “Sorte em estar cá a médica!” dizia o maqueiro, mas eu só pensava que não era sorte nenhuma, pois uma cesariana não seria feita num elevador e apesar da minha alegria com as palavras “bloco operatório” as dores não tinham atenuado.
Já no bloco operatório, depois da explicação de como me seria administrada a epidural e de tudo preparado, entra alguém a correr na sala a dizer que tinha que ser geral, pois eu estava com infecção e temperatura. Ok, vamos lá começar tudo outra vez! Deita, coloca ventosas no peito, prepara tudo e uma voz doce de pronúncia, talvez espanhola, diz que vai começar a dar a anestesia e que em breve vou deixar de sentir dores. Mel para os meus ouvidos!
E assim foi, nem me lembro em quantos segundos sai dali e deixei de sentir fosse o que fosse.
Lembro-me de acordar, ouvir uma voz a dizer “venha dar um beijo à sua filha e á sua mulher”, ver uma mancha cor-de-laranja, que hoje sei que era a camisola que ele tinha vestida e depois ver uma manchinha vermelha, que não consegui que fosse mais do que isso, mesmo depois de me dizerem para lhe dar um beijo, pois era a minha filha, mas a visão estava turva demais para conseguir deslindar fosse que linha fosse.

Onze de Dezembro de dois mil e três, meio-dia e dezoito, com três quilos quinhentos e quarenta e cinco e cinquenta e um centímetros, índice de Apgar nove ao primeiro e aos cinco minutos, nasceu a minha filha depois de treze horas de dores intensas, mas para tornar tudo mais bonito.
A partir daqui tudo mudou!
Hoje, três anos depois ela corre pela casa fora, pula, fala pelos cotovelos e traz alegria á vida de todos nós. Felizmente, sempre foi uma criança saudável e que só nos deixa transbordar orgulho!
Parabéns, meu amor, que sejas sempre tão feliz e alegre como tens sido nestes teus primeiros anos de vida, que continues a tornar os meus dias numa alegria. Serás sempre a minha razão de viver, foste o mais importante em momentos muito difíceis da minha vida e foste a razão de continuar para o dia seguinte, a semana seguinte e o mês a seguir.
És a melhor coisa do meu mundo e sem ti a vida da mamã não teria qualquer piada!

Há mesmo coisas fantásticas, não há!

2 comentários:

Anónimo disse...

E quem tinha razão, quem era?
Beijocas de parabéns do compadre!

Anónimo disse...

E já agora, um bom ano para o teu blog!
Beijos,
Compadre